A economia da China: "soft landing" ou "hard landing"?
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A economia da China: "soft landing" ou "hard landing"?


Rodrigo Constantino, Valor Econômico

Nas últimas semanas, o debate sobre um possível "hard landing" na China se intensificou. Roubini alertou que há riscos significativos de uma queda abrupta do crescimento chinês, e Martin Wolf fez coro, prevendo "águas agitadas" no futuro do país.

Há, de fato, sinais preocupantes de esgotamento de seu modelo de acelerado crescimento. Mas nunca é tarefa simples prever o futuro, ainda mais na China, que vem crescendo 10% ao ano desde as reformas liberalizantes de Deng Xiaoping, em 1978.

A inflação oficial já se aproximou de 6% ao ano, e isso demandou medidas de aperto monetário pelo governo. As reservas compulsórias dos bancos subiram para mais de 20% e a taxa de juros segue sua trajetória ascendente também. O agregado monetário M2 cresceu 15,1% ano contra ano em maio, abaixo da média recente próxima dos 20%. As autoridades chinesas estão claramente preocupadas com a inflação, que produz tensões políticas consideráveis. A catástrofe na Praça da Paz Celestial em 1989 ocorreu justamente após um ano de inflação fora de controle.

Após a crise de 2008, o governo chinês fez um dos programas mais agressivos de estímulos econômicos. Tais medidas serviram para evitar um "hard landing" na época, mas começaram a cobrar seu preço agora. O aperto monetário tem como meta limpar esses excessos sem levar a uma drástica redução do crescimento. Mas nunca é trivial administrar uma fase de ajuste econômico. Os riscos de errar na dose, para mais ou menos, não podem ser ignorados. A despeito do histórico de sucesso no passado, não existem garantias de que um "soft landing" será viável agora.

A tardia "revolução industrial" chinesa permitiu um verdadeiro choque de produtividade na economia. Mais de 200 milhões de chineses migraram do campo para as cidades na última década. Vários setores foram liberalizados, a abertura econômica e a entrada na OMC forçaram ajustes pró-mercado, e houve foco nos investimentos tanto de capital físico quanto humano. Coreia e Japão passaram por "revoluções" similares no passado, mas a magnitude na China atinge outra dimensão. Isso tem seu lado ruim também, pois a própria China passou a ser grande demais na economia global e não consegue mais manter um modelo voltado basicamente para exportações.

Além disso, o fato de a China ainda ter um regime político opressor dificulta essa transição. A educação, por exemplo, tem recebido bastante investimento, mas a falta de maior liberdade prejudica o avanço intelectual. O excesso de burocracia e concomitante corrupção também atrapalham o progresso, assim como a concentração de crédito nos poucos bancos estatais. O resultado tem sido uma evidente má alocação de recursos, culminando até mesmo em cidades fantasmas. O problema de créditos podres dos bancos e províncias não é nada desprezível. A criação de bolhas imobiliárias ainda parece uma questão limitada a certos locais, mas também gera desconforto.

O argumento mais otimista é que tudo isso existe, mas as mudanças estruturais são tão fortes que mais do que compensam esses riscos. Se 200 milhões migraram do campo, ainda existem outros 670 milhões lá. O governo, que vem adotando uma postura de mudanças graduais, ainda pode levantar inúmeros obstáculos ao livre mercado, possibilitando maior eficiência econômica. A China ainda estaria, por essa ótica, no meio do caminho de sua transformação econômica.

Mas gargalos existem, e muitos. A China pode continuar seu processo de reformas e, mesmo assim, enfrentar períodos de crescimento bem menor no caminho. Alguns indicadores apontam justamente para essa possibilidade - e por isso começaram a falar em "hard landing". A pressão nos salários tem sido crescente. A venda de veículos em abril caiu pela primeira vez em dois anos. As vendas imobiliárias também sofreram bastante recentemente. E o governo não conta mais com a política monetária para estimular a economia, pois a inflação já está em patamares elevados.

A China não parece ser uma bolha ainda, como era o Japão no final da década de 1980. Mas há sinais de excessos, e a maioria dos analistas ainda trabalha com crescimento acima de 9% este ano. Qual seria o impacto no mundo, especialmente nas commodities, se o crescimento ficasse abaixo de 7%? E se a taxa ficar abaixo de 5%? Devido ao tamanho de sua economia hoje, uma queda dessa magnitude na taxa de crescimento teria efeitos negativos no mundo todo. Esse pode não ser ainda o cenário mais provável, mas é inegável que sua probabilidade aumentou. É melhor os investidores estarem preparados para o pior.

Rodrigo Constantino é sócio da Graphus Capital




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