Ponto de chegada
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Ponto de chegada


Rodrigo Constantino, OrdemLivre.org

"No transcurso de sua existência, o ser humano só possui uma certeza: a da morte. Por silogismo, é fácil deduzir o desejo inconsciente de morte metaforicamente contido em toda busca de certeza." (Pierre Rey)
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O liberalismo clássico rejeita utopias. Ele rejeita dogmas. Uma das premissas mais básicas de um liberal é que o mundo é um lugar complexo demais para ser compreendido por modelos simplistas. Seres imperfeitos não são capazes de produzir sistemas perfeitos. Falíveis e com razão limitada, os homens precisam tatear com certa humildade temas delicados, tais como a ética e a justiça, abandonando qualquer meta mais ambiciosa de construir uma sociedade “plenamente” livre ou justa.
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Nunca vai existir algo parecido com um “paraíso terrestre” onde um ambiente de liberdade “plena” seja real. Sequer seria possível definir de forma racional e irredutível o que é uma liberdade plena. Visões conflitantes sobre isso poderiam ser igualmente razoáveis. Liberais, portanto, rejeitam a tentativa de monopolizar os fins nobres, como se apenas um único destino final fosse compatível com a “verdadeira” noção de liberdade. A existência de visões conflitantes sobre a própria liberdade faz parte da doutrina liberal.
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A causa liberal consiste, então, numa luta contínua pelo máximo de liberdade individual possível, que jamais será total. Viver em sociedade é abrir mão de parte das liberdades, aceitando divergências inclusive sobre certos valores e princípios. Liberais não pensam ter encontrado uma “pedra filosofal”, um princípio absoluto que seja capaz de fornecer respostas em quaisquer circunstâncias. Ainda que respeitem conceitos como o “direito natural”, os liberais não costumam ignorar a utilidade de suas crenças. De nada vale pregar a “liberdade” dentro de um Gulag. Os fins podem não justificar os meios, mas os resultados importam.
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O rancho de Galt, na novela “A Revolta de Atlas”, de Ayn Rand, só pode ser criado no mundo da ficção. Sua existência e sobrevivência dependem da condição de que todos os habitantes compartilhem o mesmo princípio. É como nas comunidades hippies de “paz e amor”: ignora-se o que acontece quando alguém, de dentro ou de fora, discorda do estilo de vida das pombas, e decide ser um gavião. As pombas acabam devoradas.
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No rancho, os empresários que compartilhavam os mesmos princípios libertários abandonaram o mundo e buscaram refúgio, isolados do restante. Todos ali dividiam os mesmos ideais, respeitavam voluntariamente o mesmo princípio. Era um paraíso de inúmeras figuras praticamente iguais à própria Ayn Rand. Narciso acha feio o que não é espelho.
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Mas, no mundo real, precisamos conviver com pessoas que não compartilham os mesmos ideais, ou até os mesmos valores. A postura mais arrogante – e intolerante – é aquela que trata essas divergências como fruto da pura alienação ou má-fé, e que acha que a liberdade é necessária apenas como um meio para que todos possam, finalmente, chegar às mesmas conclusões e abraçar o mesmo ideal de mundo. A liberdade, para estes, nada mais é do que o instrumento para que um consenso possa ser formado; o consenso que convirja para o que eu acredito, naturalmente. Divergências costumam ser motivo para brigas feias, pois são todos “inimigos da liberdade”.
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Outra postura possível diante do problema, aquela que considero mais alinhada com o liberalismo clássico, é respeitar as diferenças inclusive sobre o que seria uma sociedade livre, dentro de certas fronteiras. Claro que isso não é o mesmo que aderir ao relativismo total, que rejeita qualquer possibilidade de conhecimento objetivo. Tampouco é sinônimo de flexibilizar tanto o liberalismo a ponto de ele perder qualquer sentido lógico. É apenas negar a possibilidade de certezas sobre algo tão complexo. Parece evidente que o socialismo jamais será visto como compatível com qualquer concepção de sociedade livre. O mesmo vale para o nazismo e o fascismo. Mas existem regiões mais cinzentas que os liberais não são capazes de evitar.
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Deixa de ser livre uma sociedade que impede o discurso racista que incita o ódio e a violência contra minorias étnicas? O direito de propriedade privada pode ser claramente prejudicado nesse caso, mas como fica o direito destas minorias, na prática, sem tal impedimento? Uma sociedade que proíbe um partido nazista perde seu status de liberal por conta disso? A legalização de drogas pesadas como o crack, com rápida capacidade de vício, representa necessariamente uma bandeira liberal, independentemente dos seus resultados práticos? Qualquer um pode portar a arma que desejar, com base no direito de propriedade privada? Imposto é sempre roubo e, portanto, incompatível com a liberdade? Permitir o aborto é uma postura liberal? A propriedade intelectual é incompatível com a liberdade individual, ou, ao contrário, necessária para garanti-la?
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Enfim, podemos pensar em inúmeros exemplos onde visões da liberdade conflitam, e não há resposta simples para decidir qual partido tomar. Ambos os lados podem ser razoáveis e racionais. Diante de questões tão complexas, o liberal terá a humildade para evitar posturas radicais e intransigentes. O menos razoável talvez seja responder enfaticamente essas perguntas, como se fosse algo muito simples e evidente. Não é.
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O liberal não pretende posar como o dono da razão. Ele sabe que esta pode levar a caminhos diferentes ou mesmo conflitantes, sem solução aparente. O que o liberal vai defender, nestas ocasiões, são “soluções” imperfeitas. O debate aberto e civilizado, a democracia, ainda que carregada de riscos de abusos, a convivência pacífica entre as visões discordantes. O liberal não precisa enxergar como um inimigo aquele que adota visões diferentes sobre a própria liberdade, desde que suas liberdades individuais mais básicas não estejam ameaçadas. À exceção destes casos extremos e evidentes, onde basta bom senso, há toda uma zona nebulosa, em que parece legítimo discordar. O pluralismo é uma bandeira liberal.
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Em suma, o liberal não prega e não acredita num ponto de chegada, no destino final de uma sociedade perfeitamente livre. Ele está mais preocupado com o caminho, com o processo inesgotável de busca por melhorias e por mais liberdade, mas sempre sob a restrição de que nossa razão é falível e limitada para fornecer todas as respostas. Nos termos de Karl Popper, o liberalismo é uma “grande sociedade aberta” permanentemente em construção, que não negocia com seus princípios mais básicos, mas que tolera divergências razoáveis com a mente aberta. O liberal está ciente de que o melhor lugar para as utopias e as ideologias intransigentes é a lata do lixo.




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